quinta-feira, abril 16, 2015

Caindo...

As vezes me parece um sonho distante, quase uma alucinação. Foi como tocar o fim do arco-íris. Aquela promessa de um pote de ouro. Eu senti que estava chegando lá, eu podia ver o brilho. A excitação se espalhava pelo meu corpo. A energia irradiava a cada passo. Meus olhos não refletiam a luz, eles tinham sua fonte própria. Eu estava verdadeiramente feliz, eu acreditei que conseguiria.

Cheguei perto, cada vez mais. Vi seu imenso esplendor, ele me tomou por completo, como um cobertor em uma insuportável e solitária noite de inverno, e me aqueceu. A luz e a esperança me completavam, senti-me plena. Estiquei o braço e a ponta dos dedos pareciam sentir sua presença. A incomparável compreensão da amplitude dos sentidos. Estava a poucos passos e me sentia flutuar de alegria.

Então o mundo abriu abaixo de meus pés. Fui sugada. Levada para as trevas. Via tudo se perder a minha volta. Toda a luz era sugada pela insuportável queda sem fim. Tentei, inutilmente, lutar. Tentei me agarrar, mas as paredes eram gélidas, lisas e sem vida. Olhei desesperadamente para cima, mas as trevas me imundaram e a visão daquela pequena e distante luz me cegou e machucou. Agarrei-me com força, pois tinha absoluta certeza de que, a qualquer momento, meu corpo se desintegraria.

A radiante luminescência passou a me assombrar. Sua presença, mesmo que distante, fez meus olhos marejarem. Estava envolta na escuridão e nada poderia me tirar de lá. Minha pele se arrepiou com o medo. O frio dominava meu coração e consumia minha alma. A escuridão aumentava a medida que afundava. Não havia mais fim. Não mais importava lutar, nada mudaria.

Em um último, e quase trôpego esforço, tentei lembrar daquele brilho, da junção de todas as cores, daquela sensação. Então percebi que ela se fora. Se dissipara enquanto eu era absolta no lúgubre buraco em que me encontrava. Tentei gritar, mas minha voz foi engolida. Ela se perdeu em minha garganta e percebi que estava a me afogar. A água tinha um leve gosto salobro que se misturava a um sutil acre. Afogava-me em lágrimas.

Aquele sonho, só então havia percebido que o queria e porque o queria, estava perdido. Ele morreu. Levou consigo parte de minha alma e de minha crença. Cravei em minha pele um aviso. Não devo mais esquecer. Nunca mais deixarei de acreditar que antes de um futuro, há um passado que poderá, a qualquer tempo, voltar para assombrar. Acreditar que para equilibrar minha alma há anjos e demônios.


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