quarta-feira, julho 13, 2011

O Troco da Dor

Esse é um ofício encaminhado por um professor.

Foi a resposta dele a um ofício encaminhado por acadêmicos.
Não vou entrar no mérito, apenas vi como o desabafo de um mestre.
Muitos acadêmicos não fazem o curso que realmente gostam, fazem o que seus pais querem para eles, ou pior, o que apenas possa servir para lhe trazer bons proventos futuros. Mas não levam realmente a sério o seu próprio futuro. Não valorizam o conhecimento, apenas querem saber quanto lhes renderá o labor ao final de cada mês. Esses critérios estão invertidos. Os valores estão invertidos. O Professor está em uma sala de aula, não apenas para "vomitar" a matéria sobre dos alunos, como muitos querem, ele está ali para trazer respostas. Mas, respostas as quais perguntas se muitos nem se interessam pelo que está sendo lecionado...

Vi que muitos se sentiram ofendidos então vou retirar a referência aos nomes, substituindo os dois nomes contidos no texto por "A" e "B".

BLUMENAU 07 DE JULHO DE 2011.

Ref. Ofício 029/2011

SENHOR DIRETOR DO CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS,

Sei que respondo, eventualmente, em prazo superior aos cinco dias firmados (creia-me, caro diretor, isso para mim é irrelevante!). Para lhe ser sincero, "A", eu sequer iria responder a esse ofício, pois seria discutir Aristóteles com crianças de três anos que, ausentes na sua condição pueril, olham espantadas para os lados, apalpando-se nas fraldas sem perceber que o cheiro provém de suas mentes entupidas de arrogância.

Entretanto, quero crer que você, *"A", é uma das pessoas que merecem respeito e resposta, pois sempre obrou com seriedade nas suas funções (ao menos, é essa a impressão que carrego comigo!). E, portanto, respondo em sua homenagem, como um Schopenhauer outsider que, advertindo contra o perigo da boçalidade nas academias, se vê no ocaso de renovar sua postura, tal qual Jonas no ventre do grande cetáceo.

Em primeiro lugar (agora faço referência ao tal ofício 29/2011), quais seriam os alunos que se queixaram, sentindo-se imensamente prejudicados? Seriam os reprovados? Aqueles que, nada obstante toda sorte de possibilidades disponibilizadas, ignoraram arrogantemente a mão estendida, preferindo reclamar e se esconder, entre muxoxos e chorinhos, em um clubinho?

Seriam esses mesmos que, faltosos empedernidos, reclamam agora a frequência que não cumpriram, posando de vítimas quando são seus próprios algozes e responsáveis pelo abismo que mergulharam?

Vou usar um exemplo – não é o único, mas é peculiar -, o signatário do tal ofício chegou atrasado na última prova, quando já não era possível admitir retardatários eis que outros alunos já haviam deixado o local de prova por tê-las terminado. A pergunta foi: o senhor ainda me aceita (no sentido de permitir que eu franqueasse o acesso à sala e à prova)? Pois bem, permiti, possibilitando a esse menino, "B", que fizesse a prova sem o qual estaria reprovado!

Estará então o "B" compondo esse grupo de infantes e angelicais bebês tão prejudicados por este professor, o qual comete o imperdoável crime de lembrar a eles que para aprender tem que estudar?!!!

O plano foi totalmente cumprido, "A"... mas, "pera lá"!!! Este modesto escriba é professor há 21 anos.. vou repetir, professor, e não babá! Não tenho tempo nem paciência com meliantes do saber – os que fingem saber fingindo aprender!

Universal no seu valor, individual no seu conteúdo, o sentido do ensino é encontrado mediante uma tenaz investigação na qual o aluno, com a ajuda (e não substituição!) do professor, busca uma resposta à seguinte pergunta: Que é que eu devo fazer e que não pode ser feito por ninguém, absolutamente ninguém exceto eu mesmo?

O mínimo que se espera de um aluno mediano é que leia... que tenha um quase nada de empenho... e que traga suas dúvidas para serem debatidas e devidamente esclarecidas. Sabe, "A", quantas vezes isso ocorreu? Muito poucas e mesmo quando aconteceu, partiu das honrosas exceções – perceba! A UNIVERSIDADE não está extinta, está perdida! -, alunos (uns 4 ou 5 em salas de 40) que realmente estão no caminho certo (deixo de nomeá-los pois não quero fazer proselitismo) e cujas carreiras ainda haverão de ter a luminosidade inconfundível do mérito.

Mas, como você sabe, chocados com a realidade que os afronta, esses outros ineptos decidem o anonimato, perseverando nessa "casa de bonecas" intitulada DIRETORIO ACADEMICO, onde meninos e meninas projetam-se equivocadamente como adultos que jamais serão! Perdendo o senso de ridículo já não percebem que perderam-se a si mesmos. Uma urbe de cegos, que em um pomposo cotejo de cegos, guiam outros cegos para o abismo.

É a velha discussão que trouxe à lume alhures no texto "Processo Invertido". Essa "grita" incessante de direitos, direitos, direitos e nada de deveres! Essa medéia vingativa que torna obtusa a mente destes pequenos perversos, os quais, como dervixes bêbados, já não oram, apenas giram por girar!

Para finalizar, deixo algumas perguntas à prestos que faço em homenagem ao meu professor maior, Olavo de Carvalho!

Perguntemos se a exaltação histérica do senso dos próprios direitos contra a "sociedade má" – in casu, este professor que se importa com esses fedelhos – não leva cada homem a ignorar solenemente os direitos dos outros. É esse tipo de gente, "A", que vamos permitir ser forjado no ventre DESTA UNIVERSIDADE???

Perguntemos se cada indivíduo, adestrado para considerar-se vítima, não desenvolve no fundo do seu coração aquela autocomplacência rancorosa que acabará de fazer dele um carrasco.

Maquiavel já ensinava: para o fraco, é melhor parasitar o forte que combatê-lo. Então esses meninos, malfeitos que estão, preferem escalar rapidamente a tribuna dos acusadores par não cair no banco dos réus.

Vá "A", ensine a esses moços – como eu fiz! A conhecerem-se a si próprios (a consciência não é a mão que leva a arma à cabeça, mas certamente é a que aperta o gatilho!). Faça-os perceber o vórtex em que se inocularam: quanto mais hipnotizado estiver um homem, menos poderá ver na hipnose mesma a origem dos desatinos que ela o induz a cometer, e mais se inclinará a descarregar suas culpas inconscientes sobre o primeiro bode expiatório que o hipnotizador sugira. A autopersuação delirante se fecha sobre si mesma, num círculo perfeito.

E não falo somente desse aglomerado perverso (essa fraternidade de caserna acadêmica) que, gritando incessantemente de direitos, vicia os alunos de tal forma que já não têm eles condição de discernir entre o certo e o errado, mas também de alguns profissionais da área do ensino do direito, cuja moral e credibilidade estão atreladas à máxima: la garantia soy jo!

O ensino torna-se assim um emprego, um papel social, e a seleção dos candidatos nada exige em matéria de condições morais, espirituais ou psicológicas: desde que passe no concurso, um esquizofrênico, um farsante, um demagogo, um assassino ou um mentiroso compulsivo pode agora adornar-se do título que um dia significou "professor de educação" – ao entrar na universidade, esse professor é um joão-ninguém; ao sair, é um joão-ninguém com diploma e sem alma.

Pense bem, todo povo, se não está doente de vaidade, quer mestres que o eduquem, não puxa-sacos que o cortejem! Se os bons professores não forem ativados e valorizados ontologicamente, ou seja, pelo seu valor em si, a inteligência desses garotos, já quase inominável nesses termos, sem a capacidade de captar o nexo simbólico que dá por assim dizer carne e sangue às abstrações, restarão dispersados num formalismo oco, numa combinatória alucinante de silogismos vazios, num verbalismo pedante que traduz apenas a impotência de conhecer.

Se não me é permitido combater esse vício, opto por permanecer à margem desse mundo condenado, escolhendo a solidão e ficando, assim, com a melhor parte.

Essa é minha manifestação. Espraie esse dizer nãos aos poucos queixosos, mas a todos os pais desses mesmos e também a todos os pais dos alunos da UNIVERSIDADE. Quando os argumentos fermentarem naqueles que prezam os valores fundamentais observarás, certamente, o grito primevo desses mesmos pais: vão estudar, moleques!

Portanto, "A", esta é minha obra. Se ela servir para mostrar a uns o caminho da independência e a outros a porta da rua, terá cumprido sua missão!

Atenciosamente, Stephan Klaus Radloff.



Um comentário:

  1. A primeira leitura me impressionou, mas vejo agora muita subjetividade. Não posso tirar conclusões sem conhecer o Stephan, mas não estaria ele preocupado em demasia? Qual será o verdadeiro motivo da falta de participação dos alunos?

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