domingo, janeiro 10, 2010

(Im)Penetrável Mundo de Incertezas

- Ahhhh... não me diga que você perdeu a fé na humanidade, pois você está nela, e acho que não perdeste a fé em ti mesmo. Sei que as coisas não estão saindo como planejado, mas quem disse que algum dia algum plano foi infalível. Aprenda uma coisa, o plano "B" é mais do que um opcional de fábrica, é uma necessidade. Tenha sempre em mãos as coisas necessárias. Nunca se sabe o que vai acontecer! Ou agora você resolveu ir para a guerra sem armas?

Um minuto se passa, o silêncio se faz presente em toda aquela sala. As paredes manchadas pelas infiltrações dos buracos do velho telhado. Mal se via as estantes, a última lâmpada do lustre já estava fraca, velha e empoeirada. As únicas coisas naquela sala que entregavam a presença de habitantes era o velho sofá marcado e a mesa de centro limpa, onde o cinzeiro se encontrava já com algumas bitucas de cigarro.

Mais uma baforada e o silêncio se rompe.

- Não adianta abaixar a cabeça e finjir que não é contigo, tentar seguir em frente empurrando com a barriga. Quando você levanta o olhar assim, penso que você deveria olhar dessa maneira ameaçadora para o mundo. Sim, encare o mundo, siga contra a corrente. Ou você se acha incapaz para isso?

O cigarro vai a boca, guiado pelos dedos esguios, quando se aproximam dos lábios o vermelho das unhas se confundem com o do batom. Quando são afastados as palavras saem com a fumaça:

- Nem pense em me interromper neste momento, a nostalgia é minha, afinal, foi você que me chamou aqui. Se não queria ouvir minhas palavras ou meus devaneios nem deveria ter se atrevido a me procurar. Nem sei porque você voltou naquele muquifo, não era muito mais fácil me ligar, mandar uma carta, ou alguém? Ou vai me dizer que não aguentava mais sem me ver? - A alta risada fez eco no aposento - Nossa, me desculpe, esqueci o quanto essa casa é assustadora quando vazia. Aí está uma coisa que eu nunca entendi, porque você nunca vendeu essa espelunca. Vai me dizer que quer guardar as memórias dos bons tempos? Encare a realidade, acabou!

As cinzas são depositadas na louça em cima da mesa, ela respira fundo e levanta o olhar vagarosamente até o homem do outro lado da sala. Olha penetrantemente para sua face, não consegue ver seus olhos pois o óculos refletem a luz. Dá um sorriso de desprezo e retoma a fala.

- Já não te disse que as memórias devemos guardar conosco e não em coisas supérfluas? Pelo jeito não aprendeu, nem isso, e nem que a única coisa que jamais tirarão de nós é o conhecimento. Investiu as coisas no que não devia, e acabou assim. Olhe para você agora. Me pedindo ajuda, a mim? Uma protituta que teve que impor o respeito pelo sangue?! Ah, não me faça essa cara de assustado, você sabe muito bem do que estou falando, ou você acredita mesmo que aquela desgraçada daquela caftina morreu de morte natural? Eu era o braço direito dela, e esse foi seu erro e sua condenação. Ela esqueceu do que me ensinou: jamais confie totalmente em alguém. Se quer entregar algo para alguém, entregue seu coração, afinal, você não precisa dele. Mas nunca divida todos os seus conhecimentos, tampouco dê a sua vida, pois ninguém dará o real valor que ela merece. Se você morrer por alguém. Durante, no máximo, um ano ele se lembrará, depois, terá sido em vão.

Ela se esticou para apagar a bagana no cinzeiro. Fez mensão de pegar um novo cigarro no masso.

- Você deveria parar de fumar. Isso vai acabar matando você.

- Não se preocupe, outras coisas me mataram antes. Assim como mataram você. Isso que nem fumar você não fumava. Ou agora vai me dizer que você está vivo? Acho mais que você está vegetando, ou virou um fantasma, assim como toda a sua esperança. Já sei o que deve estar se perguntando. Como pode uma mulher que ganhou a vida vendendo prazeres vir aqui, e lhe dizer como deve viver? Não é essa sua indagação?

- Não, não me atrevo a questionar o que faz, ou fez para chegar até aqui.

- Entendo. Chegar até aqui, frase interessante, mas eu discordo dela. Eu não cheguei até aqui, eu passei daqui, ou já se esqueceu, que você foi apenas mais um degrau na minha escalada. Eu nunca parei, eu nunca freiei, estou sempre acima do limite de velocidade. Comecei cedo. Fazia sucesso! Logo Madame me chamou. Eu era jóia rara. Cresci rápido, tinha ótimos clientes, investi em mim, e me tornei mais do que apenas uma mulher mundana. Até que eu conheci você. Jovem promissor, dava ótimas festas. Por um momento achei que me tiraria daquele mundo podre. Saiba que tive prejuízos aquela época. Pois é! Dispensei clientes por você. E quando vi seu casamento anunciado no jornal, aprendi a separar o coração da razão. Confesso que não foi nada fácil. Dediquei-me então a ser um dia mais do que você. Mas você veio de família rica, e tinha tudo para dar certo. Mas veja só onde chegamos, nada é impossível, não é mesmo?

Tirou então o cigarro do masso e acendeu enquanto ouvia.

- Logo que casei, minha esposa era linda, uma boneca, perfeita. Mas eu desejava você e você não me quiz mais. Decidi que tentaria te esquecer, afinal não passava de uma meretriz, mas nunca esqueci. Logo minha fábrica teve problemas de embargo governamental, as coisas começaram a dar errado. Minha mulher não aguentou. Foram tempos difíceis, eu gastei o resto do meu dinheiro tentando me reerguer e entender o porque de tudo...

- Enxugue essa lágrima que escorre pelo seu rosto, seja homem, seja forte! Afinal não vim aqui apenas para conversar, vim também para lhe trazer conforto.

Ela se levantou, dirigiu-se até ele, sentou-se em seu colo, e começou a lhe beijar. Ele se aproximou mais, abraçou-a forte, e sussurrou em seu ouvido:

- O governador era bom na cama?

Ela sentiu um friu penetrar-lhe a cintura.

- Você esqueceu do que aprendeu: jamais confie totalmente em alguém.

Mayane K. Baumgärtner

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